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Ditadura estética: as armadilhas da autoestima

Há uma ditadura estética que praticamente obriga as aspirantes a modelo ao enquadramento de medidas esquálidas e frágeis.

No entanto, não há nada de glamoroso nesse mundo de flashes e ilusões. Muito pelo contrário, muitas vezes, acontece até mesmo um massacre com essas jovens sonhadoras.

Sabemos que a autoestima bem estruturada não é o forte de muitos jovens, que caem na ditadura estética imposta pela mídia. Mas infelizmente, há quem se aproveite disso.

Por isso, é preciso desenvolver o senso crítico para não se deixar manipular. Nanna Bessa, escritora e modelo cosplayer é um bom exemplo a seguir:

Ditadura estética

Nada mais malévolo do que fazer com que o outro desenvolva emoções negativas sobre si mesmo. Entretanto, isso é mais comum do que se imagina.

Inclusive, eu diria que isso retrata uma realidade de pessoas tóxicas, especialistas em destruir a autoestima do outro.

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Nanna Bessa rompeu a ditadura estética depois de passar por muitos julgamentos de uma sociedade doente.

Nesse sentido, em nome da beleza, passam por cima da ética e até mesmo da própria saúde.

Sendo assim, conversamos com uma vítima da ditadura da estética, que compartilha com o Movimento Íntimo Feminino, um pouco de sua realidade.

Assim, dividindo o cenário com muitas outras mulheres, senão a maioria de nós, a cosplayer Nanna Bessa tem muito o que nos contar:

Desabafo de quem esbarra na ditadura estética

“Quando eu tinha uns 17 anos, uma agência de modelos (bem pilantra) de Goiânia me convidou para fazer parte do casting da empresa. Eu, que nunca havia me achado bonita, fui ao céu.

Chegando lá me disseram que eu estava acima do peso. Na época, eu pesava cerca de 58 quilos, hoje peso 65 quilos.

Desde então, comecei a tomar anfepramona e remédios similares para emagrecer. Cheguei aos 51 quilos. Puro osso. Infelizmente, devido a alguns efeitos dos remédios, acabei na UTI.

Em suma, me disseram que meu quadril era muito grande e que eu poderia me candidatar a participar do ‘É O Tchan’.

Além disso, num dos castings, ouvi que eu era muito baixinha para ser modelo de passarela e muito exótica para ser modelo fotográfica. Por isso, se peguei um trabalho nessa época foi muito.

Logo, a autoestima bem equilibrada foi para o saco. Me sentia feia, derrotada e inadequada.

Anos se passaram e mudei muito fisicamente

Hoje, possuo 16 tatuagens pelo corpo, cabelos longos e ruivos, assumi as sardas e uso pouca maquiagem. Assim, passei a aceitar que nunca vou ser magrela (e nem quero). Por isso, me esforço para aceitar o meu nariz, minha altura e todo o pacote.

No momento em que fortaleci minha autoestima, surgiram convites para ensaios fotográficos remunerados. Dessa forma, atendia aos convites de amigos e conhecidos também. Ainda hoje aparece algum trabalho no ramo. A cada um desses convites eu me lembro do quanto me senti mal naquela época.

Gostaria de poder mostrar para cada um daqueles ‘profissionais’ que, mesmo eu não tendo feito parte daquela panelinha e não ter virado uma modelo internacional, eu resisti, eu me aceitei, eu me amei. E a partir de então, as pessoas passaram a me ver diferente.

Logo, acredito que TUDO na vida acontece na hora certa e do jeito certo.

Naquela época eu poderia até fazer sucesso, quem sabe?

Mas estaria obedecendo a um padrão. Ou seja, teria um corpo que me impuseram, sendo escravizada e triste. Entretanto, hoje eu sou dona da minha vida, escolho quais trabalhos farei, qual postura adotarei, qual visual eu terei.

A agência? Não existe mais. Nem aquela Nana de antigamente. E eu agradeço diariamente por isso”.

A voz de quem sofre em silêncio

Quando vi Nana, fiquei encantada por sua pessoa. Tão bonita e cheia de histórias, que não resisti e a convidei para essa entrevista.

Hoje, ela trabalha como modelo publicitária em São Paulo e se diverte como cosplayer, quando se fantasia de personagens dos quadrinhos.

Aurélia Guilherme – O que dizer para quem embarca nessas roubadas das “agências” da moda?

Nanna Bessa – As agências costumam selecionar meninas e meninos bem novos, já que acabam se deixando levar pelo status de ser modelo. Mas infelizmente, a maioria desses não tem boa autoestima.

Por isso, quando eles percebem que alguém notou uma beleza que eles julgavam não ter, acontece a empolgação. É triste, pois eles aceitam tudo o que é imposto, seja por que buscam fama ou pela beleza, agora, reconhecida.

Aurélia Guilherme – Você diria que este seja o retrato dos bastidores das agências de modelos?

Nanna Bessa – Não posso dizer que são de todas, mas nas duas que passei, havia a panelinha com as modelos.

Aquelas que se enquadram e as que fazem “volume” na seleção. De toda forma, acredito que isso não mude tanto de agência para agência.

Aurélia Guilherme – Essa foi a razão para você ter desistido de ser modelo?

Nanna Bessa – Sim. Eu pesava 58 quilos na época. Diziam que eu tinha o quadril muito grande, que precisava emagrecer. Assim, tomei remédio tarja preta para emagrecer com 18 anos. Cheguei aos 51 quilos.

Fiquei com a saúde péssima. Mesmo magérrima, ainda assim, não conseguia nenhum trabalho. Sempre arrumavam algum motivo para me desclassificar.

Assim, acabei desistindo, porque me sentia muito mal com minha aparência, me sentia frustrada por não ser boa o suficiente.

Aurélia Guilherme – Os remédios para emagrecer eram prescritos por médico?

Nanna Bessa – Sim. O médico dava a receita tranquilamente. Eu comia 1 vez ao dia, ainda forçada. Não sentia fome alguma. Passava o dia todo com taquicardia, um pouco deprimida.

Isso durou alguns meses, não me lembro bem. Recuperei o peso rapidamente. Existem médicos que passam esse tipo de receita sem problema algum.

Aurélia Guilherme – Quais os caminhos por onde você seguiu?

Nanna Bessa – Depois disso, eu segui a vida. Alguns anos atrás, comecei o processo de aprendizado e aceitação de mim mesma. Antigamente nem short eu usava, porquê tinha vergonha da celulite. Entretanto, fui me forçando a perder isso.

É incrível, mas quando me aceitei de verdade, começaram a aparecer convites para campanhas fotográficas. Então, foi aí que comecei a fazer cosplay em eventos.

Depois disso, passei a postar fotos que mostravam mais do corpo. Fui percebendo que muito era fantasia da minha cabeça.

Além disso, a maturidade também ajudou. Eu me cobrava perfeição demais. Hoje, já relaxei, já compreendi que não sou e nem quero ser perfeita e talvez a beleza esteja justamente aí.

Mesclo com as fotos, meu trabalho de cosplay. Mesmo sendo remunerado, esse trabalho é um hobby por me fazer muito bem.

Vale lembrar que aquela distorção da imagem, uma mistura de genética e influências externas, como comentários maldosos piadinhas em escola, ainda hoje não superei. Mas posso dizer que mudei muito com relação a isso.

Hoje, me sinto bem mais segura em diversas áreas.

Aurélia Guilherme – O que dizer a quem sofre com a ditadura da beleza?

Nanna Bessa – Que não baixem a cabeça, que não aceitem o que dizem sobre sua aparência, sobre como devemos ser. Não é um processo fácil, mas hoje em dia tantos padrões tem sido quebrados.

Tantas mulheres lindas e empoderadas têm nos mostrado que os padrões existem para ser rompidos. Ninguém precisa se encaixar em enquadramento algum.

Precisamos nos sentir bem como somos. Claro que temos defeitos que, às vezes, não sabemos lidar com isso.

Por que não abraçá-los? Esses “defeitinhos” podem nos fazer únicas, nos fazer lindas.

Quando agimos assim, sem saber, inspiramos outras pessoas que passam pelo mesmo problema em silêncio.

Só depende da gente quebrar esses padrões de beleza. Cada vez que uma mulher se assume e se ama como é, mais enfraquece aquilo que nos impõe.

Você também tem problemas para aceitar seu corpo e sofre com a ditadura estética?

Venha para o Movimento Íntimo Feminino e deixe o seu relato nos comentários.

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Aurélia Guilherme

Aurélia Guilherme

Uma jornalista que atua nas entrelinhas

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